Gomes Cravinho avisa que comprar caças F-35 aos EUA seria "erro grave"

Publicat: 2026-09-26 08:36:36 | Sursă: jornaldenegocios.pt
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O ex-ministro da Defesa João Gomes Cravinho avisa que seria "um erro grave" Portugal comprar caças F-35 aos Estados Unidos, considerando que essa opção implica "criar uma dependência com um aliado cujo percurso futuro é muito incerto".

"Eu não tenho dúvidas nenhumas que seria um erro grave apostarmos no F-35", defendeu João Gomes Cravinho, em entrevista à agência Lusa em Bruges, na Bélgica, onde assumiu em julho o cargo de reitor do Colégio da Europa.

O ministro da Defesa Nacional entre 2018 e 2022 reconheceu que os caças F-35, produzidos nos Estados Unidos, são considerados por muitos "o melhor avião que por aí anda".

"Mas Portugal precisa de ter o melhor avião que por aí anda ou pode ter o segundo melhor, com um conjunto de outros benefícios em matéria de Defesa e de integração europeia versus uma situação em que criamos uma dependência face a um aliado cujo percurso futuro é muito incerto?", questionou.

Gomes Cravinho salientou que, quando se está a comprar a nova geração de aviões de combate, está-se igualmente a comprar uma "apólice de seguro" e, no caso dos F-35, não se pode ter a certeza de que "quem está a dar a apólice vai honrá-la".

"Não me parece a melhor decisão", reforçou, rejeitando que, ao assumir esta posição, esteja a defender uma total dissociação da aquisição de material militar aos Estados Unidos.

"Não estamos nesse ponto, mas é uma medida de precaução que devemos adotar", sustentou.

O aviso de João Gomes Cravinho surge numa altura em que o Governo está a escolher o substituto para a frota de F-16 da Força Aérea Portuguesa, que está em fim de vida.

O negócio está a ser disputado entre os norte-americanos da Lockheed Martin (que produzem os F-35 Lightning II), os suecos da Saab (Gripen E) e o consórcio europeu que inclui a Airbus (caças Eurofighters Typhoon).

Apontada pela Força Aérea como a melhor solução para substituir os F-16, a aquisição de F-35 tem sido, no entanto, motivo de debate, porque faria com que Portugal ficasse dependente da indústria e do controlo de 'software' norte-americano durante o ciclo de vida dos caças (cerca de 40 anos), motivo que levou a Espanha a rejeitar a aeronave e a optar por alternativas europeias.

Na entrevista à Lusa, Gomes Cravinho advertiu que "é um erro grave" considerar que o afastamento dos Estados Unidos em relação à Europa é temporário.

"Não é o caso. Não sabemos quem será o próximo Presidente, mas os fatores estruturais sobre os quais assenta este afastamento vão continuar a lá estar", avisou, falando num "afastamento histórico".

Nesse contexto, Gomes Cravinho defendeu que a Europa deve perceber que "depende de si própria" e começar a "jogar em diferentes planos temporais" para se ir autonomizando progressivamente dos Estados Unidos.

No curto prazo, "isto é, nos próximos cinco anos", a Europa não vai ser capaz de "criar capacidade europeia de defesa própria" seja a nível de comando e controlo ou de 'enablers' [capacidades que permitem o lançamento de operações de combate, como sistemas de radares] e, por isso, "a lógica deve ser o reforço cada vez mais sistemático do pilar europeu" no seio da NATO.

"A prazo, nada me garante que a NATO ainda lá estará daqui a 10 ou 15 anos. E penso que o desenvolvimento do pilar europeu da NATO nos anos mais próximos deve ser feito mantendo em aberto a opção de europeizar completamente", advogou.

Nesse âmbito, o ex-governante português disse ser "cada vez mais favorável" à criação de um exército europeu, por considerar que não é viável a UE continuar com "27 chamados exércitos bonsai".

"Penso que devemos evoluir no sentido de um modelo em que, antes de decidir se vamos comprar fragatas, aviões de transporte estratégico, o façamos em coordenação com os nossos aliados próximos, dentro da UE, para não duplicar", sustentou.

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