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Enquanto os líderes mundiais se reuniam em Nova Iorque para a 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, dois encontros empresariais ofereceram uma leitura particularmente interessante sobre o momento que atravessa a sustentabilidade empresarial, o Global Leadership Forum for Sustainable Innovation, a 21 e 22 de setembro, e o UN Global Compact Leaders Summit, a 22 e 23.
A coincidência não é apenas geográfica ou de calendário. É também substantiva.
Na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral, António Guterres descreveu um mundo marcado por conflitos prolongados, crescente fragmentação geopolítica, desigualdades, perda de confiança nas instituições, aceleração da crise climática e uma transformação tecnológica em particular através da inteligência artificial que está a alterar rapidamente a distribuição de poder. A sua mensagem central foi que estas crises não podem ser entendidas isoladamente: fazem parte de uma transformação mais profunda da ordem económica e política internacional.
Enquanto dentro das Nações Unidas se discutiam estes grandes riscos sistémicos, nos fóruns de líderes em redor da Assembleia Geral discutia-se uma questão complementar: como transformar estes desafios globais em decisões concretas de empresas, investidores e mercados?
A principal conclusão talvez seja simples: a sustentabilidade entrou numa nova fase. O desafio já não é apenas assumir compromissos, mas criar as condições para os executar em escala.
No Leaders Summit, que reuniu mais de 750 líderes empresariais, investidores, decisores públicos e especialistas, a mensagem foi clara afirmando que num contexto marcado por instabilidade geopolítica, volatilidade económica e transformação tecnológica, sustentabilidade e resiliência empresarial são cada vez menos agendas separadas. O UN Global Compact defendeu que os princípios de sustentabilidade precisam de chegar às decisões que realmente moldam as empresas, tais como o investimento, estratégia, gestão de risco, operações, 'procurement' e cadeias de valor.
A mudança seguinte é ainda mais relevante. A transformação necessária já ultrapassa aquilo que cada empresa consegue fazer individualmente. Os debates passaram das práticas internas para os próprios sistemas em que as empresas operam: políticas públicas, incentivos económicos, estruturas de financiamento, mercados e cadeias globais de fornecimento. Uma das sessões resumiu-o particularmente bem: “The Systems We Design Are the Future We Get.”
Esta mesma lógica estava presente no Global Leadership Forum for Sustainable Innovation. Empresas, investidores, tecnologia, governos, organizações internacionais e sociedade civil foram reunidos não apenas para discutir sustentabilidade, mas para aproximar quem desenvolve soluções, quem as pode financiar e quem tem capacidade para as implementar e escalar. Temas como oceanos, energia limpa, inovação, conservação, empreendedorismo e investimento surgiram, assim, dentro da mesma arquitetura de colaboração.
O financiamento tornou-se inevitavelmente central. 'Blended finance', capital catalítico, investimento privado e parcerias público-privadas foram apresentados como instrumentos necessários para transformar objetivos globais em projetos economicamente viáveis. A sustentabilidade começa assim a deslocar-se do domínio dos compromissos para o das decisões de capital.
Outro sinal dessa mudança está no 'procurement' e nas cadeias de valor. Durante a semana, o UN Global Compact lançou um novo Sustainable Procurement Implementation Framework, colocando a sustentabilidade cada vez mais próxima das decisões quotidianas de compra e das relações com fornecedores. A cadeia de valor deixa de ser apenas uma fonte de emissões ou riscos sociais e transforma-se num dos principais instrumentos para alterar mercados.
Também a tecnologia e a inteligência artificial entraram definitivamente nesta equação, simultaneamente como instrumentos para melhorar eficiência, transparência e capacidade de monitorização e como novas fontes de risco ético, social e ambiental.
Esta é talvez a ligação mais interessante entre aquilo que aconteceu dentro e fora da Assembleia Geral.
Na ONU discutia-se a necessidade de reconstruir confiança e capacidade de cooperação num mundo cada vez mais fragmentado. Nos fóruns empresariais discutia-se como essa mesma transformação pode chegar ao investimento, às cadeias de valor, à inovação e às decisões concretas das empresas.
Num momento em que se fala de fadiga 'ESG', recuos políticos e regresso ao curto prazo, seria fácil concluir que a sustentabilidade perdeu espaço.
Os sinais de Nova Iorque apontam para uma leitura mais complexa.
A sustentabilidade pode estar a perder algum do seu vocabulário, algumas das suas etiquetas e até alguma da visibilidade que teve nos últimos anos. Mas está simultaneamente a entrar em lugares onde será muito mais difícil retirá-la: na alocação de capital, na gestão do risco, nas cadeias de fornecimento, no 'procurement', na inovação, na segurança energética e na própria estratégia competitiva das empresas.
Talvez seja esta a verdadeira mudança de fase.
A sustentabilidade deixa progressivamente de ser uma agenda que as empresas apoiam para passar a fazer parte da forma como decidem, investem, inovam e competem.
E isso altera também a pergunta que importa fazer.
Até agora perguntámos sobretudo quem assumia os compromissos mais ambiciosos.
Nos próximos anos, a pergunta será outra: Quem consegue transformar esses compromissos em capital mobilizado, soluções implementadas e transformação real à escala e à velocidade que 2030 exige?
A sustentabilidade não desapareceu, mudou de lugar